terça-feira, setembro 12, 2017

ACONTECEU NO NATAL


Depois daquele Natal nunca mais fui o mesmo. Ele foi tão marcante que até hoje, sempre que o pisca-pisca das decorações de Natal começa a diminuir o peso com que as noites  sufocam e oprimem a cidade, toma conta de mim uma confusão interior, um misto de angústia, talvez frustação ou será mesmo uma certa vergonha ? Medo? Culpa? Não, acho que é uma impotência intencional. “O que posso eu, um simples cidadão comum,  fazer para melhorar o mundo ? “ No fundo eu sei que posso fazer algo, mas as desculpas para não fazer e ignorar o que me rodeia são no mínimo mil vezes maiores que os motivos para dar apenas um pequeno passo, fazer só uma pequena ação, apenas que seja uma simples palavra. Além do que, só nesta época  me assaltam todos estes sentimentos e lembraças. Este conflito interior só por causa daquele Natal! Mas tenho que concordar que  teria que ser um Natal no mínimo diferente dos outros. Era o segundo Natal como desempregado! Essa pele peçonhenta de derrotado que a sociedade logo veste num desempregado já grudava em mim fazia tanto tempo que eu achava que não ia sair nunca mais. Já estava me acostumando a ser olhado meio de lado, uma mistura de desprezo com repulsa. Desgraça pega, chô sai pra lá, negativismo, derrota para bem longe. Numa dessas ele ainda vai pedir um favor, se der um pouco mais  de atenção periga até pedir dinheiro emprestado. Era assim que eu me via nos olhos dos outros. Dizem que a vida é um espelho, você é visto e tratado pelos outros do jeito que você se considera e vê. Eu não acreditava que pudesse ser capaz de me diminuir e punir tanto e de maneira tal cruel, para o mundo me devolver toda aquela indiferença, desprezo e sofrimento por que estava passando. Mas este é um conto de Natal, tem que falar de amor, fraternidade e paz na terra aos homens de boa vontade, que nesta época acredito que são todos, pelo menos é o que dizem. Apesar de também estar desempregado, no ano anterior, não tinha sido tão difícil. A demissão fora só há dois meses atrás, ainda havia o dinheiro da indenização, a perplexidade e o desgosto de ter sido apanhado pela re-engenharia estavam um pouco diminuidos pelos incentivos dos amigos. “Relaxa. Curte umas férias. Agora o País pára mesmo. Depois do Carnaval, quando começa o ano de verdade, achas alguma coisa melhor, eu tenho certeza”. “Será ? “ “Sim, claro!” “Acho que tens razão. Nunca fui demitido antes”. “Não fui só eu. Eles acabaram com todos os gerentes administrativos, agora um faz o trabalho de quatro”.”Estou falando, não foi por incompetência...”. “É, eles até me deram uma carta de recomendação”. “Viu só ..” E o Natal passou, veio o fim de ano, a indenização se foi, veio o Carnaval, a Páscoa. O que será que está acontecendo ? Deve ser uma crise passageira. O fundo de garantia acabou. Várias entrevistas, outros tantos chás de cadeira depois o desespero começou a chegar.O condomínio em atraso. “É temporário, mês que vem coloco em dia”. Um emprétimo do pai. “Tenho certeza que é por pouco tempo, até sexta-feira vão me dar uma resposta, fiz uma entrevista semana passada, estou com a maior fé”. Várias sextas depois me convenci que uma ligação, mesmo dizendo que ainda não foi desta vez teria sido melhor que passar estes dias sonhando e acelerando minha pulsação a cada toque do telefone. Será que as pessoas de Recrutamento já ficaram esperando uma resposta que nunca chegou? Acho que não. Auto-estima acabando, humilhações, o BNH atrasado, domingos e domingos esperando o jornal, a mensalidade da escola não foi paga. “Não temos mais nada para comer, o que é que eu faço ?” A câmera de vídeo se foi, o videocassete também. O colégio está reclamando de novo. Desta vez foi a sogra que emprestou. O orgulho cada vez mais ferido. “Vamos ter que jantar na casa dos teus pais”. Agora foi a vez do telefone, mais entrevistas, mais esperas, esperanças desfeitas. O fundo do poço não chega nunca! A auto-estima não existe mais. “Tenho que ser forte, minha família depende de mim”. Meu Deus, o que está acontecendo ? A dúvida aumenta, será que vou sair desta ? Acho que não. É só jogar o carro na frente daquele caminhão que vem vindo que tudo termina. Na velocidade que estamos não sobra nada. Vou me informar. Não vai dar certo, o seguro não paga suicídio. Chegou a vez do carro. “Mas eu preciso de um emprego”. “Infelizmente o senhor é demais para o cargo”. Não adiantou, não dão oportunidade de começar de baixo. Com esta idade é mais difícil. O último recurso, a casa. O último bem. Quando um homem não consegue dar nem casa nem comida para a sua família a situação é péssima. “Eu juro que estou tentando, já fiz vários bicos, já tentei várias coisas”, nada. A sociedade não perdoa. Fomos educados assim, não existe chance para os derrotados. Ninguém se importa. É um fracassado. O bem mais precioso se foi, não valho nada, sou um pária da sociedade, sou um peso para a minha família, morto valeria mais. Porquê tudo isto ? O que o mundo está querendo me ensinar, quanto mais preciso sofrer ? A quanto mais preciso me humilhar e submeter ? Eu sei, eu prometo que da próxima vez eu darei mais valor ao que tenho, mas por favor me dêem uma última oportunidade. Eu começo tudo outra vez, mas pelo menos me consigam um emprego. Sem trabalho, sem renda um homem não vale nada. Agora eu entendo os desesperados os suicídas, os excluidos. O sofrimento é devastador, quando ele é grande, corroe tudo internamente que cria um vazio interior enorme. Mas não é um vazio sem nada é um vazio de dor, uma tristeza e uma desesperança totais. Era assim que eu me sentia naquele 23 de Dezembro. Quando peguei o ônibus para o centro, uma solidão imensa tomava conta de mim. Só tinha na mente uma preocupação, como explicar para as minhas filhas que não tinha dinheiro para comprar presentes de Natal, que a vida não era essa felicidade das propagandas da TV. O mundo todo as fazia pensar que o Papai Noel existe e iria trazer presentes para elas. É assim que funciona a nossa sociedade de consumo, na base das compras, dos presentes, quanto mais você gosta, mais e melhores presentes você oferece. Se você não tem nada para dar, você não ama. Era isso que elas viam e ouviam em todos os lugares. Vai ser um choque acabar a fantasia só porque não tenho presentes para dar. Eu tentava me lembrar de quando descobri que o Papai Noel não existe, talvez não tenha sido de maneira tão dolorosa pois não me lembrava. Como os outros se lembram ? Hoje queria acreditar que Papai Noel existe e que me traria algum emprego de presente. Eu precisava ter esta esperança, algo teria que provocar uma melhora na minha fé no mundo em principalmente em mim. Era difícil pois olhava pela janela do ônibus, via aquela multidão com pacotes e sacolas e pensava como é ingrata esta época, eu desejando esquecer os meus problemas, voltar atrás no tempo, e todo o mundo alegre e contente. Mundo injusto. Nunca tinha sentido tanta revolta. Era este o meu estado de espírito quando aquele velho de cabelo e barbas brancas, veio se sentar do meu lado.
- Bom dia !
Respondi um oi meu entredentes meu grunhido. Era o que me faltava, ter que aguentar alguém do meu lado para conversar. Logo hoje ! Não se intimidando, complementou sorridente:
- Feliz Natal !
Era só o que faltava. Precisei me controlar. Existe ofensa maior que encontrar alguém feliz quando se está aborrecido ou deprimido? Para mim não existe. Depois de contar até 200, olhei para ele meio de lado e simulei uma resposta.
- Humm, humm.
Mas o velho bonachão era teimoso ou fez que não percebeu a minha indiferença.
Voltou à carga:
- Esta época do ano é maravilhosa.
Fiquei quieto. A educação não me obrigava a responder, foi um afirmação.
Quando pensava que o meu silêncio o tinham feito desistir, ele atacou de novo:
- O senhor não acha que as pessoas ficam diferentes no Natal ?
- Diferentes como ? Respondi. Saiu sem querer. Era isso que ele queria, uma resposta minha, iniciar uma conversa. Ele continuou já se animando.
- O espírito natalino torna as pessoas mais alegres, mais solidárias, mais amigas.
- Depende, eu não concordo com o senhor.
- Depende !? Depende  do quê ? Agora ele pegou a minha isca.
- Depende de como a pessoa se sinta, o que estiver passando no momento. Para quem está desempregado por exemplo. Como será que esse monte de gente se sente?
- Concordo, para essas pessoas é um pouco mais difícil. Mas não deixa de ser uma oportunidade deles renovarem esperanças, aproveitarem o espírito geral e aumentarem a fé e a confiança.
- Até concordo com o senhor se o espírito do Natal fosse realmente esse que o senhor está pensando, mas hoje em dia não é assim. O Natal virou um comércio, o que se vê é compra, compra, compra, ninguém mais está preocupado com esse tal espírito do Natal!
- No geral sim, ninguém se preocupa mais com o verdadeiro significado do Natal. Mas ainda existe um pouco de amor e solidariedade apesar de tudo.
- Então, nesse espírito comercial como é que fica quem não tem dinheiro para dar presentes ? Como vão explicar isso para os filhos ?
- Eles vão ter que explicar a realidade. As crianças são bobas, percebem tudo que se passa. Elas não são muito exigentes. Pode reparar, quando encontram o Papai Noel  ficam felizes com uma bala e um pirulito.
Tive que concordar ”É, o senhor tem razão”.
- Mais importante que dar presentes é dar amor, dar carinho, é retrubiur a quem nos ama. É dizer que gostamos dos outros, é fazer um elogio. Às vezes uma simples palavra de amor, de conforto vale muito mais que o maior presente do mundo. Principalmente para quem está sofrendo.
Fiquei calado, não me ocorreu nada para dizer. Estava pensando no que ele me disse. Ultimamente estava demais absorvido em mim, nos meus problemas, me esquecera que havia alguém que poderia me apoiar, que gostava de mim. Parece que ele percebeu que tinha me tocado. Continuou:
- Temos que nos lembrar do que estamos comemorando no Natal. O nascimento Daquele que  veio nos dizer que todos possuimos um grande tesouro.
- Como assim ? O que será que ele estava querendo dizer, pensei.
- Sim, temos o maior tesouro dentro do nosso coração, a capacidade de amar. O segredo  está em sentir, criar esse sentimento de amor permanente. Acreditar com o coração. Esse espírito de amor no coração de todos é que deve ser o verdadeiro espírito do Natal.
Mais uma vez me calei. Ele foi se levantando. Me estendeu a mão e disse sorrindo:
- Bom, meu amigo, vou ter que descer. Um feliz Natal para você e sua família.
Me levantei, nos abraçamos, e respondi : “Muito obrigado, um Feliz Natal para o senhor também”. Já de costas enquanto ele se dirigia para a porta me pareceu escutar um “Hoo, Hoo, Hoo “ familiar. Mas todos dizem que foi impressão minha, que estava tomado pelo espírito da epóca. Papai Noel não me deu um emprego de presente, só algum tempo depois voltei a trabalhar de novo, mas me deu uma visão nova, um conceito diferente de presente, de Natal. É essa visão que agora, no Natal,  vem me perturbar. Por isso, eu prometo. Neste Natal, vou tomar coragem, largar esta indiferença. Vou dizer e sentir algo de bom para a família, para os amigos. Perder o medo e fazer também para um desconhecido, para alguém que precise. Pode ser que faça a diferença.


OCIN.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

TODA HISTÓRIA DE AMOR ...


Toda boa história tem começo, um meio e um fim.

Era uma vez é um ótimo começo para uma boa história. Era uma vez uma mulher que vivia tranquila. Ou pode também ser, Ele estava vivendo tranquilo quando. São começos tradicionais, mas uma boa história começa assim. Estava tudo tranquilo, ou talvez, quando ele chegou ao Brasil. Alguém na sua vida do dia a dia, dentro de um contexto seguro ou aparentemente tranquilo, até que ... aí começa a história mesmo, aí que nosso herói ou heroína se sobressaltam, se perturbam no seu sossego, sua tranquilidade na sua segurança, mesmo aparente sem eles perceberem.

Toda boa história tem começo, um meio e um fim.

Às vezes pode começar pelo fim, ou pelo meio. Depende de como você quiser contar. Ou de como foi a história, melhor o final ou melhor o começo? Você escolhe como contar, mas sempre tem começo meio e fim. Às vezes o final pode não ser feliz então faça o começo feliz o final. OU mesmo pode começar por um meio muito feliz. Até porque dizem que toda boa história de amor, não tem final feliz. Não tem? Não sou que estou dizendo. Dizem.

Toda boa história tem começo, um meio e um fim.

E se o final for feliz, não é uma história de amor? Claro que é. Só que então não é final, é um começo de nova história. Pode ser também um meio feliz. Se o meio for feliz, faço esse meio sempre o começo de uma boa história sem fim. Iniciando e recomeçando sempre. Como por exemplo, todos os dias ele acordava pensando ou falando com ela. Um bom meio pode ser também, enquanto ela sonhava com uma vida sossegada e soba controle... ou também, ele gostava muito de estar sozinho, mas .... Uma boa história deve ter sempre um ‘mas’. Um ‘mas’ decisivo. Um ‘mas’ conflituoso, um ‘mas’ que perturbe, um ‘mas’ esquisito em princípio. Um ‘mas’ transformador e que leve a um final mais feliz ainda.

Toda boa história deve ter começo, um meio e um fim.

Um bom começo de um fim pode ser, até que um dia ela se deu conta... ou mesmo de repente ele resolveu que não queria um final feliz, para poder ser uma boa história de amor. Com isso ela decidiu que a história acabaria, também é um bom começo de fim de história, já que todas as histórias de amor não têm final felizes. Mas como pode ser isso? Como fazer uma história feliz? Não pode ser uma história de amor se tiver final feliz? Pode, porque só existem finais quando você conta uma história e uma história é apenas uma parte de outra história que tem que ter começo, um meio e um fim mesmo que a ordem de cada uma não importe muito. O que importa mesmo, é que seja uma história com começo, meio e fim e que seja uma história de amor, porque todas as histórias do universo são histórias de transformação e portanto,  sempre serão histórias de amor. Sem começo, nem meio, nem fim definidos, porque é a sua história que só você vai contar.

Todas as histórias de amor, não têm começo, nem meio e nem fim.

São eternas!

sexta-feira, maio 06, 2016

INSÔNICRAS # 0933 MINHA VIDA MUDOU QUANDO ...


Olha só como ele está feliz! E ainda coloca as fotos no face para mostrar que já esqueceu nossa separação e está bem. Hummm interessante, sempre rindo nas fotos. Quem será esta aqui, será ela? Aparece em várias fotos. Aqui eles estão abraçados. Cachorro, nem se passaram dois meses e já esqueceu nosso relacionamento de 4 anos. E sempre tomando vinho. Puxa, bem que um vinho ia bem agora, para afogar este choro idiota. Tenho que esquecer, acabou, ele não quer mais e não presta. Vou ter que esquecer, mas está difícil. Ele nem se arrependeu. Vou tomar um vinho.
Será que não ficou nenhuma garrafa? Ah tem uma aqui. Puta que pariu o cachorro levou o abridor melhor. Tá bom, foi um presente meu, mas era para tomarmos aqui os dois. Agora deve estar tomando com alguém. Era muito bom. Nossa tenho que esquecer. Vou tentar com este velho mesmo.  Merda, não dá. Melhor tomar um banho e ir dormir. Deixa pra lá.
- Alô, oi Ju!.... Sim, já estou deitada e você? ...... Ah tá, mas você não conseguiu terminar? ...... Sim, às 9, na sala de reuniões do terceiro.... Mais ou menos, eu tentei tomar um vinho para esquecer, mas não consegui, me lembra ele, nossas melhores noites foram com vinho... Sim, mas a merda da rolha se quebrou ao abrir, eu sei, mas sempre era ele que abria. Achava muito charmoso... Vou ter que aprender.... Tá bom você vai comigo... Ok beijo até.
- Luiza, você viu como ele olhava para ti amiga?
- Sério Ju? Nem reparei.
- Simmm, acho ele um gato.
- Rsrsrs já entendi, você está querendo que eu dê mole para o Alfredo.
- Não é isso amiga, você precisa esquecer aquele cachorro do Renato.
- Eu sei, eu vou esquecer.
- Porque você não compra um bom vinho, um Malbec, enche a casa de velas, toma um banho bem quente, põe uma boa música e celebra, uma nova vida?
- Ótima ideia. Semana passada tentei fazer isso, lembra? Mas não sei abrir vinho, a merda da rolha quebrou se esfarelou toda.
- Nossa, Lu, você não sabe abrir uma garrafa de vinho? Ichh amiga, sua vida vai mudar quando aprender. É como diz a Teresa, uma mulher só se torna realmente independente quando aprender a abrir e tomar vinho sozinha e compra um brinquedo ahahahah
- Para Ju, você sempre com esse papo ahahah. Tá bom, vou ter que aprender a abrir vinho e só!
- Já é um começo ahahah um passo de cada vez. Você precisa aprender a relaxar. Mas por favor esquece esse cara.
Hoje eu vou conseguir, preciso esquecer, recomeçar a viver. Isto anda me atrapalhando, acabar com o choro, chega de chorar, bola para a frente, a fila anda! Vou fazer isso, vou comprar um vinho e comemorar a nova vida. Hummm é isso aí, vou passar na loja e comprar um abridor novo.
- E como faço para que a rolha não quebre?
- Com este abridor, é muito fácil, só encaixar no gargalo, assim. Veja como a rosaca fica bem no meio da rolha.
- Anham, sim. Mas não precisa fazer muita força?
- Não, depois que a rosca desceu toda, é só baixar as pontas assim e pronto, bem fácil e sem fazer força.
- Ótimo, acho que entendi, vou experimentar e se não der certo volto aqui.
- Você vai ver que é bem fácil, vai dar certo, tenho certeza.
Será que coloco velas? Ah se é para comemorar vou acender. Pronto, agora vou tomar um banho bem quente e passar o óleo, tudo que tenho direito.
Hummm cheirinho bom destas velas, aroma gostoso. Agora só falta abrir o vinho curtir o som e partir para outra. Ahhh mas foi fácil abrir, delícia este malbec. Muito bom!
- Nossa Lu, o que aconteceu, você anda diferente estes dias?
- Hummm amiga você tinha razão, minha vida mudou depois que aprendi a abrir vinho!
 
Inspirado numa frase da @celinhacamargos no Instagram.

segunda-feira, dezembro 28, 2015

DE VOLTA ÀS ORIGENS 1 – 18/12/2015


AINDA NO AVIÃO

Um dia me dei conta de que se passaram já 40 anos. Foi assim de repente. Acordei do sonho, ou das amarras psicológicas do passado. Comecei a olhar as fotos dos amigos no facebook e percebi que alguns dos lugares que eu conheci estavam diferentes, que os rostos dos meus amigos já não eram os mesmos. Pensei um pouco e me apercebi, meus filhos estão adultos.  Me olhei e me vi mais velho também, o tempo também passou para mim. Talvez por ser uma manhã cinza de domingo ou eu estar nostálgico talvez, mas o embate veio e veio forte. Tive que me olhar com atenção, talvez nunca me olhei assim, passou o tempo, passou rápido. Passou para mim também, ou será que passou por mim. Acho que passou por mim. A gente chega num lugar estranho e como não tem possibilidade de voltar vai vivendo sem pensar muito, um dia após o outro, se integrando, tentando crescer, criar raízes, vencendo. Mas as coisas não andam sempre em linha reta, na sequência certa. Às vezes a criança assustada, o adolescente inseguro e tímido o jovem medroso ou até o adulto imberbe, revoltado e marcado por tiros e morteiros aparecem. Sempre irão aparecer, cabe lidar com eles, mal ou bem, usá-los para avançar. Não deixá-los muito tempo soltos por aí fazendo estragos, se escondendo, se rebelando e lutando sem causa. Que nem agora ao perceber que já se passaram 40 anos.

Para quem é um refugiado, sou um refugiado, assumi isso também, talvez a forma de viver seja diferente, nunca vou saber. Talvez com outros seja diferente, mesmo vivendo o que eu vivi terão outros sentimentos, outras marcas, outras transformações, uma dor diferente, ou até uma sem dor. O que importa para mim agora, é como vi a vida, como a senti! Não existe sofrimento maior ou menor, não existe concurso entre dores ou de conquistas. Na essência, cada um tem o desafio da vitória sobre si mesmo. Depende do tamanho das suas perdas e danos. E esse tamanho cada um dá conforme quer, conforme se deixa atingir. Somos do tamanho que damos às nossas perdas e danos e como diz a Juliette Binoche no filme, nunca seremos mais os mesmos depois de cada perda. As minhas perdas eu as fiz grandes, outros fizeram pequenas, outros nem as fizeram. É assim. Talvez as façamos do tamanho das justificativas que precisamos dar e dos medos que não queremos vencer.

Engraçado, como as coisas aconteceram. Fui vivendo, às vezes escolhendo outras nem tanto. Sendo escolhido, empurrado, indo por aí, sendo levado pelos acontecimentos. Mais indo do que escolhendo. Conforme as necessidades vamos nos equilibrando, vivendo e aprendendo a viver. Elis, você estava certa. Fui andando por aí sem pensar muito, mais instintivo do que racional, talvez por isso nem vi passar estes anos. Vêm e vão-se empregos, lugares, colegas, pessoas, vontades e sentimentos. Vêm e ficam os filhos e as experiências, os sentimentos. Sempre andando, sempre buscando sem muito pensar nem avaliar. Sem se permitir parar, sem se permitir vacilar, foi vencer ou vencer, não existia caminho de volta. Foi assim, tudo muito rápido e intensivo, parece que foi ontem, mas já foram 40 anos. Sem pensar muito, sem muitas escolhas às vezes.

Por isso a decisão veio naturalmente, vou ter que ir a Portugal e a Angola. É preciso parar, avaliar, desacelerar, optar. Já não precisa correr tanto. Só um pouco, existem ainda muitos sonhos a realizar. Mas antes uma parada sentimental. Buscar de novo as raízes, a história.  Pronto, decidido. Pela facilidade, Portugal foi a escolha. Começar pelo fim. Retornar às origens pelo mesmo caminho. Um passo de cada vez.

sexta-feira, agosto 28, 2015

CANARINHO, O QUE QUERIAS ME DIZER?


Ontem, na derradeira despedida, na última saída, encontrei um passarinho dentro do carro. Deixei a janela aberta e ele entrou. Um canarinho da terra, pequeno, esverdeado com penas azuladas, bonito.
Deixei o vidro aberto e ele entrou. Nunca tinha acontecido antes.
Aprendi em Angola que às vezes quando isso acontece, com passarinhos ou outros animais, eles querem te dizer algo, te trazer uma mensagem. Algo bom, um agrado, um aviso ou até um alerta....

 O que será que esse passarinho queria me dizer?

 Sempre gostei de passarinhos, mas só recentemente percebi essa atração. Engraçado isso, admirar e gostar de passarinhos e nunca ter percebido isso. Me apercebi disso quando pensei como seria bom ser como os passarinhos. Como meu amigo Luiz Andrioli muito bem se desculpou poetisando:
"Passarinho lembra asas.
Asas para voar, asas para acolher.
Voar para novos ninhos
Acolher novos carinhos."
Ter a liberdade de andar por aí solto sem amarras nem compromissos, apenas vivendo.
Ter a facilidade dos passarinhos que a cada primavera constroem um novo ninho e o abandonam logo que os filhotes voam. O desapego de não ter coisas para carregar, de soltar os filhotes no mundo, de os forçar a voar sozinhos. De ir por aí carregando apenas a vontade.
Poder cantar, a felicidade de cantar, andar por aí cantando, só pelo prazer da música e de espalhar alegria.
Ter a simplicidade e a delicadeza infantil dos passarinhos, ah como seria bom isso.
Não pude entender o que querias me dizer canarinho.
Querias te despedir de mim?
Agradecer as inúmeras vezes que deixei comida pela grama para que tu e teus companheiros pudessem vir comer e me deliciar com a vossa presença e o vosso canto?
Me desejar felicidades? Me dizer para partir com confiança?

Não sei ... pena, não pude conversar com ele.

Pena que não sou passarinho!


OCIN, o aprendiz de Xinganje

terça-feira, maio 26, 2015

INSÔNICRAS # 1243 “ATÉ QUE OS CANUDOS SE SEPAREM!”

INSÔNICRAS # 1243 “ATÉ QUE OS CANUDOS SE SEPAREM!”

Tu pedias coca e eu também, hamburger e eu também. Antes era lado a lado para o beijo rolar. Agora é frente a frente. Hoje resolvi voltar aqui, para tentar recordar. Tentar quebrar a monotonia e os silêncios cada vez mais longos entre nós. Até este lugar que sempre vinhamos, para comer bem juntinho ficou diferente. Agora as risadas e os beijos não existem mais soltas. São arrancadas e parecemos bons amigos que se acostumaram a viver juntos. Aquele bom dia com beijo virou um oi, tudo bem? O que se passou? Eu quero tudo de volta, por isso estou aqui. “Sei tudo que o amor é capaz de me dar” como diz o Roberto Carlos. Já tive, quero ter de volta. Olhando para ti, aqui na minha frente, vendo teus cabelos brancos aparecendo, sei que ainda te amo e és o homem da minha vida. Não sei como chegamos aqui.
Agora frente a frente. Agora tu pedes de limão e eu laranja. Tu com gelo e açúcar e eu sem açúcar. Antes conversavas comigo, agora só com o celular. O que mudou? Eu? Tu? Nós? Também me sinto presa a alguma coisa que não sei explicar, que me deixa parada, na frieza também. O que será que aconteceu? Mas ainda quero minha chama de volta, os carinhos, as conversas depois do sexo. Sei que é possível trazer isso de volta e vou tentar.

“Amor” Agora este amor, ficou mais frio, virou um João, ou um Jorge. “Hamm?” “Lembra quando a gente vinha aqui?”, “Sim lembro, porquê?”. Como porquê? “Nada”. ”Como nada Luiza? Se você perguntou é porque tem alguma coisa”. “Mudou bastante ... “, “Sim, as coisas ficam velhas, precisam ser trocadas ...”. Será que é isso, as coisas precisam ser trocadas? “O que você acha, Carlos, gostou como está agora?”, “O quê? A decoração? Achei bonita. Tudo tem que se adaptar, modernizar?”. “Concordo, nada fica como antes ...”. “Porquê tudo isso agora, Luiza, o que você está querendo dizer?”. “Nada, me lembrei, de quando a gente vinha aqui ...”. Esse silêncio que me mata. “Você não lembra?” “Sim lembro, era legal”. Sim era legal, não era só isso, era amor, paixão. Agora tu pedes risoto e eu salada. Até os canudos estão paralelos ...

INSÔNICRAS # 1234 UMA MÚSICA

INSÔNICRAS # 1234 UMA MÚSICA

Não me lembrava mais desta música. “Demorei muito pra te encontrar ..” engraçado, agora que o António postou e vendo os comentários, me lembrei de como foi marcante para mim. “ ... agora quero só você  ...”. Quanto eu desejava poder falar isso. Para mim já demorava muito para achar alguém. Aquele alguém com quem me encontrava em pensamento, ir de encontro a um abraço que me fizesse sentir coisas. “ ... será que é sonho meu...” sempre me perguntava. Não poderia ser apenas um sonho, essa pessoa tinha que existir. Até que parei “ ... de me preocupar ...”, deixei correr e fiquei nas lembranças e desejos, me conformei. Quase me apaixonei e senti algo grande, mas não era ainda o que buscava e achava que era o amor. Me quedei na minha solidão e me acostumei, mas “... tantas vezes que eu fiquei só, chorei, chorei ...”. Sempre retornava no dia seguinte à rotina em que me refugiei. A gente se acostuma e começa a achar que é assim, que o amor só existe para alguns, que alma gêmea é coisa de novela. Nós já nos tínhamos visto de passagem na empresa algumas vezes, trabalhávamos em filiais diferentes. Não lembro, mas acho até que trocámos algumas palavras, talvez um oi ou alguma pergunta, nas minhas visitas à filial. Até que sem querer, nos encontrámos lado a lado num treinamento. Algumas lembranças me vieram, muito tempo se passou. “Ah sim me lembro sim, eu ia no teu setor pegar meu material”. “Também lembro”. Ah tá, e por isso se ficou, mas algo não foi mais o mesmo. Como não percebi antes, humm interessante. Que pessoa sensível, como não tinha reparado antes, inteligente. Olha que sorriso lindo. Só isso. Nem reparei no seu pedido de amizade no face, aceitei como aceito normalmente todo mundo que pede. Quem é que está curtindo meus posts? Ahh já sei, nem tinha reparado. Nossa diferente na foto. Mais uma reunião juntos e o papo do cafezinho, de noite foi parar no chat do face. No outro dia, do face para o Whatsapp foi um pulinho. Humm ficar conversando uma hora no Whatsapp? “Meu pensamento voa de encontro ao teu, será que é sonho meu? ...”. De horas e dias no Whats foi pulou para um almoço, um lanche, um roçar de braços, de corpos, um beijo no estacionamento. Um abraço apertado. “Agora eu quero ir fundo  lá na emoção, mexer teu coração”. O salto foi dado, “... e todo mundo vê que eu quero só você..”. Esta música revela tudo, como não me lembrei antes. Deixa escutar de novo e de novo, não me canso, já devo ter escutado umas 6 vezes. Cada vez que escuto me lembro de mais um detalhe, como aquela tarde em que nos amámos, e senti “... coisas que não sei dizer ...” e só sinto com você...”. “Oi meu amor, acordei você com a música?”. “Não ... ah que música é essa que você não para de escutar?”. “É a música da nossa história”. “Mas não era aquela do Titãs?”. “Aquela é a nossa música, esta é a da nossa história”. “Então tá ...”. “Vem cá me beijar e amar, quero te dizer uma coisa, “demorei muito pra te encontrar, agora quero só você, ... , te abraço e sinto coisas!””, e o Fábio Jr continuou o refrão,
“ ... E todo mundo vê
Que eu quero só você
Só você
Eu quero só você
Só você
Eu quero só você..”
Inspirado na música “Só você, demorei muito para te encontrar”.
Obrigado Fábio Jr pela letra da sua música.

INSÔNICRAS # 325 ELE EXISTE?

INSÔNICRAS # 325 ELE EXISTE?


Ela acordou, viu as horas no celular, 3 e 33. Achou estranho a confluência de números e ser tão cedo ainda, tinha dormido tarde ontem, ops hoje já, há pouquinho tempo. Estava com fome, sempre lhe dava fome de madrugada, talvez por isso esses dois, não dois, uns três, ah tá 4 quilinhos a mais, apertou o pneuzinho do lado fez uma careta mas mesmo assim resolveu ir fazer um café e comer alguma coisa. Levantou de mansinho. No escuro. Só as luzes dos aparelhos e controles. Cada vez mais aparelhos e luzinhas temos nos vigiando na escuridão, bom assim dá uma referência para não pisar nas coisas largadas. Aii, quase machucou o pé na ponta do carregador caído do lado da cama. Já sentada na banqueta da cozinha, olhando as formas desordenadas da água absorvendo o pó de café e descendo no filtro, começou a pensar melhor, o cheirinho do café tinha despertado sua mente. No silêncio geral da casa, pode escutar o som baixo da geladeira, aquele barulhinho gostoso do café descendo e saborear um pouco de calma. Esse momento de silêncio geral a fez se escutar, são nas poucas horas que temos em que o silêncio de fora nos faz escutar os gritos interiores, ela não queria se escutar, mas não teve jeito, o momento exigia. O grito que sempre vinha de dentro e cada vez mais forte dizia, porque meus relacionamentos nunca dão certo? Bom, alguns não tive culpa, eles eram uns galinhas, o casamento e o quase casamento também não tinham condições de continuar, não dá para aguentar uma traição nem pegação no pé! Ciúme demais tô fora! Mas não consigo acertar, será que sou cega e me empolgo demais? Mas se vou com calma e não libero logo eles caem fora. Se vou logo não ligam de volta. Será que é verdade que eu meto medo? Não consigo entender, acho que é isso mesmo, os homens têm medo de mulheres fortes, só querem burrinha e mulherzinha. Hummm sou eu que assusto? Ou escolho errado? A Dani está certa sim, o bom é a paixão, aquelas borboletas na barriga, depois perde a graça, não existe o amor, só a paixão depois o tédio. Os casamentos continuam pela amizade e comodismo. É isso, tipo um picolé, depois canso, não aguento mais. Estou viciada na paixão virei caçadora. Será que estou assim? “Suzanaaaa, cadê você?” O silêncio foi cortado pelo grito dele chamando do quarto. Puta que pariu ela xingou baixinho! Tô aqui, ela respondeu. Vem aqui fazer uma conchinha, ele clamou. Que saco, ela pensou, viu só? Imagina se casar, não dá nem para tomar um café tranquila de madrugada. O café já tinha passado, ela levantou e se questionou. Será que termino agora ou invento uma desculpa qualquer, espero ele acordar e termino mais uma história de uma grande e eterna paixão quando ele for embora?

segunda-feira, julho 30, 2012

SONHAR, O GRANDE DESAFIO!

Escrito em 1994 mas atual.
SONHAR, O GRANDE DESAFIO.
     Quando a Ciência envereda por caminhos nada objetivos e formais.
     Por António A. B. Moreira. http://www.antonioabmoreira.com.br

         Hoje em dia é extremamente comum e se tornou um modismo até falar em coisas como:  sonho, usar o lado direito do cérebro, visão do futuro, criatividade, intuição, neurolingüística, etc. "E dai ? ", diria você, "num País como o Brasil isso não é surpresa nenhuma. Aqui você assiste ao Clero tradicional prestigiar cerimônias de religiões Afro com a maior tranqüilidade ou até pesssoas que freqüentam, sem conflito filosófico ou ético nenhum, vários tipo de Igrejas, Seitas, Gurus, etc...". Só Deus, realmente, para decifrar os caminhos que se usam para chegar até Ele! É, eu sei tudo isso. Hoje em dia se você não está por dentro nem do seu signo, você estará completamente excluido dos mais elementares grupos informais. E caso você seja solteiro(a), pior ainda, seu futuro como ser sociável está seriamente compromentido. Amigo(a), ainda é tempo de enveredar por esses temas chamados "esotéricos" ou "espiritualistas". Contudo, voltando ao assunto, a surpresa vem do fato de que os temas acima estarem sendo usados por Empresários, Administradores, Empresas de Treinamento, Consultores e pasmém, tudo isto também nos EUA! Realmente, hoje já é usual no mundo da administração você falar em Intuição, Visão, Sonhos, etc. Prestando atenção, você verá que várias empresas estão usando o "Sonho" como tema de suas campanhas motivadoras, tanto internas com externas. Poderemos citar como um dos grandes exemplos a G. E. com o seu "Dream it, Do it".

                Apesar da moda o assunto não é tão novo assim. Às vezes ele é chamado por outros nomes dependendo do autor. Eu, sinceramente, prefiro chamar de sonho mesmo. Isso resgata o meu passado de aluno desatento. Porque, quando o professor  me dava bronca por não prestar atenção à aula, e dizia que eu estava sonhando acordado, eu estava apenas me adiantando no tempo. Naqueles momentos sonhava com a minha colega do lado! Brincadeiras à parte, vários autores já vêm se referindo ao tema há bastante tempo. Em 1935 Napoleon Hill, ao estudar os milionários da época, descobriu a importância do pensamento. Ele sistematizou a forma de sonhar e pensar com sucesso nos livros "Pense e Enriqueça" e "A Lei do Triunfo". O Dr. David Schwartz em 59 editava o seu livro "A Mágica de Pensar Grande" onde também ressaltava o poder do indivíduo em criar o seu futuro através da força do pensamento. Conceito esse, desenvolvido mais recentemente no livro "A Mágica do Suce$$o" editado em 1.989. Durante a 2 a Grande Guerra o Dr. Frankl Victor verificou que aqueles seus companheiros judeus que conseguiram sobreviver ao inferno do campo de concentração, tinham uma grande visão ardente de um futuro que desejavam encontrar após a guerra. Todos eles chegaram a conclusões bastante parecidas, se resumindo em que, quando você crê ou sonha ardentemente, a mente acha meios de realizá-lo. Ou como diz Goethe, "Você pode fazer qualquer coisa que sonhar, é só ter coragem para começar". Podemos então dizer que a mágica do sucesso seria o poder de um sonho lícito. Começando por um sonho, o coração desejando ardentemente, passando pela mente ao acreditar que seja possível e terminando na ação dirigida, você terá comprovado o poder da "visão do desejo", a ferramenta que lhe permitirá criar a vida que você gostaria de ter. Não precisamos mais recorrer ao Tarot, aos búzios ou à sortista mais recomendada do bairro para saber o futuro. É simples. Hoje vivemos o que pensamos/sonhamos ontem, amanhã estaremos vivendo do jeito que pensamos/sonhamos hoje. Contudo, apesar deste processo ser simples, ele requer bastante trabalho, disciplina e um método adequado. Para sonhar corretamente temos, com toda a certeza, de seguir os conselhos de quem já estudou exaustivamente o assunto e seguir os modelos já comprovados de sucesso.

                 Podemos analisar o tema também sob a ótica Bíblica, e olhem que eu não sou nada especialista no assunto. O quartel dos bombeiros do lado da Igreja onde tive minhas aulas de catecismo era um atrativo mais forte que o estudo religioso. Mas, apesar disso, duas questões sempre me levaram a refletir bastante ao longo dos anos. As questões são: "E no príncipio era o verbo" e a afirmação de que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança. Hoje creio pessoalmente que esse "Verbo" do princípio nada mais era que um Sonho Divino levado à ação. Sobre a segunda dúvida, a minha humilde opinião pessoal é de que a nossa semelhança com Deus se dá em três pontos: a capacidade de Sonhar/Pensar a única faculdade realmente livre que o ser humano possui, a capacidade de Realizar esse sonho e por último a que completa as outras duas, a capacidade de Amar. E a constatação da semelhança entre o ser humano e Deus, não se restringe apenas ao Velho Testamento, podemos encontrá-la também em muitas outras religiões ou civilizações.

                Para as organizações, as "palavras chave" de hoje são Qualidade, Comprometimento e Participação. Sem elas não haverá sobrevivência nos próximos anos. No lado individual é a qualidade de vida, é o comprometimento com a sociedade é a participação política que se busca. Mas, vamos nos deter a analisar estes conceitos. Eles têm muito a ver com o que estamos tratando aqui. Só se consegue qualidade com o comprometimento e a participação de todos. Acho que não há dúvida nenhuma em relação a isto. É elementar, que a qualidade dos produtos/serviços e a da organização como um todo se obtêm com a participação de cada um. E o comprometimento individual se atinge quando se deseja realmente a conquista do objetivo. Quando você sonha com a meta proposta, quando você realmente a deseja. Não é preciso fazer muita força para lembrar quanto o sonho e o desejo ardente de conquistar a primeira namorada(o) fizeram você suplantar imensos obstáculos. Pelo amor se fazem coisas nunca imaginadas.

                 Realmente é cada vez mais importante, e só assim se atingirá a qualidade, tanto a nível de vida individual como em qualquer agrupamento social, que se esteja lutando por um sonho, que você busque continuamente atingir os seus sonhos. Quando se luta por um sonho a vida torna-se uma festa, o sorriso permanece nos lábios, o suor do cansaço não pesa, tudo é motivo de orgulho. Além do que, quando você vai a caminho do seu sonho o Universo conspira a seu favor. Goethe dizia que "No momento em que nos compromissamos, a providência divina também se põe em movimento". Napoleon Hill estabeleceu este conceito a nível de grupo através da sua "Lei do Master Mind" dizendo que um espírito de inteligência e de ajuda, superior à soma dos esforços individuais, o "Master Mind" ou Mente Superior, se desenvolve por meio da cooperação harmoniosa entre duas ou mais pessoas que se aliam com o objetivo de realizar uma determinada missão. A chamada Sinergia se estabelece.

                Através da História os exemplos comprovam que o sucesso das Civilizações, dos Países, e das Organizações se atingiu quando o sonho individual se tornou um sonho comum ou o sonho individual fazia parte do sonho coletivo. O segredo dos grandes líderes foi tornar o seu sonho o sonho dos liderados. As grandes empresas surgiram do sonho ardente de um empreendedor/líder que aglutinou à volta do seu sonho outros que o seguiram, outros que se compromissaram em também atingi-lo. Este é o desafio da Administração ou de qualquer um que ocupe função de liderança, fazer com que o sonho da organização se torne também o sonho do indivíduo ou que o indivíduo realize o seu sonho com a realização do sonho da organização. Em suma, que o indivíduo também se comprometa com o objetivo da organização.Quando falamos aqui em organização estamos falando em empresa, mas poderiamos estar falando de qualquer outro tipo de organização ou grupo social, seja ele um simples time de futebol de bairro ou seja até a família.

                O poeta Fernado Pessoa disse um dia que "Navegar é preciso". Nada é mais atual, pois para navegarmos temos que ter um objetivo/porto a atingir. Para atingi-lo teremos que ter: uma rota a seguir, determinação e a tripulação estar comprometida em atingir o porto também. Portanto o sucesso será daqueles que conseguirem fazer do seu sonho o sonho dos outros. O grande desafio está lançado: "Sonhar também é preciso".

                                                                              SUCE$$J !